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id da página: 3594 Orígenes Tratado da Oração Orígenes

Orígenes Pedidos

XIX OS ÚLTIMOS PEDIDOS


"E NÃO NOS INDUZAS EM TENTAÇÃO, MAS LIVRA-NOS DO MALIGNO" (Mt 6,13; Lc ll,4)

As palavras: "E livra-nos do Maligno", não se encontram em Lucas. Pressupondo que o Senhor não nos ordena pedir o impossível, parece-me bom indagar por que se nos ordena pedir que não sejamos induzidos em tentação, ao passo que a vida inteira do homem sobre a terra não é senão tentação. Enquanto permanecermos na terra, vestidos da carne em luta contra o Espírito, "a tendência da carne é inimiga de Deus e é tal que não pode se sujeitar à lei de Deus" (Rm 8,7), nós estamos em tentação.

Que toda a vida do homem sobre a terra seja uma tentação, aprendemo-lo de Jó, que diz: "Não é, acaso, a vida dos homens sobre a terra uma tentação?" (Jó 7,1).

O mesmo é dito no Sl 17, no versículo: "Em ti eu serei libertado da tentação" (v. 30).

Não escreveu Paulo aos Coríntios que Deus não nos concede a graça de sermos isentos de tentação, mas de não sermos tentados acima das nossas forças: "Não vos assaltaram tentações, senão humanas; ora, Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima do vosso poder, mas com a tentação vos dará o modo de poder resistir a ela com êxito" (1 Cor 10,13). Quer tenhamos de lutar contra a carne, que milita contra o espírito, ou contra a alma de toda carne — sinônimo do princípio superior (tó hegemonikón), chamado coração, luta que sofre todo aquele que está submetido à tentação humana, quer travemos o combate de lutadores mais experimentados e perfeitos, que já não lutam "contra a carne e o sangue", nem estão mais sob o ataque das tentações humanas, mas lutam "contra os principados, as potestades e os dominadores das trevas" (Ef 6,12), todos, em suma, estamos sujeitos à tentação.

Como pode ser que o Salvador nos ordene pedirmos para não cair em tentação, se Deus tenta, de algum modo, todos os homens?

"Recordai-vos (disse Judite não só aos anciãos do seu tempo, mas a todos os futuros leitores do seu livro) de como agiu Deus com Abraão, das provas a que submeteu Isaac, das que ocorreram a Jacó na Mesopotâmia da Síria, quando guardava os rebanhos de Labão, irmão de sua mãe. Como submeteu à prova todos estes para sondar seu coração. Assim o Senhor nos fere para nossa correção, porque Deus põe à prova aqueles que dele se aproximam" (Jt 8,26-27). E quando diz Davi: "Muitas são as tribulações do justo" (Sl 33,20), fala em geral de todos os justos. Assim também o Apóstolo nos Atos: "Por muitas tribulações devemos nós entrar no Reino de Deus" (At 14,22).

Muitos não entendem o sentido da petição: "Não nos induzas em tentação". Se não a entendemos retamente, teríamos de concluir que os Apóstolos, quando oraram assim, não foram ouvidos. Eles, de fato, sofreram mil males no curso da sua vida, "em fadigas mais abundantemente, açoites, prisões, perigos de morte" (2 Cor 11,23).

Paulo recebeu da mão dos judeus quarenta açoites menos um, três vezes foi açoitado com varas, uma vez foi apedrejado, três vezes naufragou, um dia e uma noite esteve perdido no mar (cf. 2 Cor 11, 24-25). Foi um homem com tributações de toda espécie, com ansiedades, perseguições, abatimento (cf. 2 Cor 4, 8-9). Mas apesar de tudo, ele confessa: "Até o presente passamos fome, sede, nudez. Somos esbofeteados, andamos errantes. Cansamo-nos trabalhando com nossas mãos. Se nos insultam, bendizemos. Se nos perseguem, suportamos. Se nos difamam, respondemos com bondade" (1 Cor 4, 11-13). Se os Apóstolos não tiveram resposta a suas orações, que esperança pode ter uma pessoa muito mais insignificante do que eles?

Diz-se no Sl 25: "Põe-me à prova, ó Senhor, investiga-me, passa pelo crisol a minha consciência e o meu coração" (v. 2). Talvez haja alguém que, sem examinar detidamente o conteúdo do preceito do Salvador, possa supor razoavelmente que este versículo do salmo está em contradição com o que nosso Senhor ensinou sobre a oração. Mas, quem jamais supôs que estaria livre das tentações, levando em conta somente os que ele conheceu? Quando será o tempo em que não sendo preciso lutar, não tenhamos receio de pecar?